GOIABAS NO CESTO
Andar pelo campo? Colher
goiabas? E pensar...
Clara! Clarinha! Por onde
andas, menina?
Ela gostava de correr
livre, de ser livre, de não dar explicações.
Os pais se preocupavam com
aquela menina esquisita. Escrevia poesias na terra, vivia alheada.
Era linda, mas tão
diferente da irmã.
...
E vieram os anos. Ela
cresceu. Os cabelos no meio das costas, cabelos encaracolados, rebeldes. Bem
como ela. Não parecia se adequar ao lar. Era mesmo muito diferente. Costumava
voar... e voltar.
...
-- Você se casará mesmo
com este moço?
-- Por que não? Gosto
dele.
-- Não é o rapaz certo
para você.
-- O que é certo para
mim?
...
Mas o casamento não se
realizou. O rapaz sofreu um acidente fatal às vésperas do casamento. Gostava
tanto dele. Ele entendia suas esquisitices.
...
-- Nunca mais me
interessarei por ninguém, papai.
-- Tolice. Logo aparecerá
alguém.
-- Não é o que almejo para
minha vida.
-- O que pretende?
-- Pretendo viver
sozinha.
-- Não é bom...
...
E os anos foram passando.
Realmente ela nunca mais se interessou por outro homem e se pôs a escrever. A
escrever sem parar.
Vieram os sobrinhos. Eram
lindos e ela os mimava. A criançada amava aquela tia excêntrica. A poeta da
família.
Os pais velhinhos somente
a olhavam como a se perguntar um ao outro: onde erramos com esta menina? Então
ela já havia passado dos cinquenta anos.
Usava roupas amalucadas,
coloridas. Usava chapéus chamativos e botas nos pequeninos pés.
A sobrinhada dizia: nossa
tia é doidona, mas é tão legal.
...
Os anos corriam. Um dia
morreu o pai, algum tempo depois a mãe e ela ali na casa, dedicando-se às
poesias, as flores, aos bichos.
Era uma mulher bonita e
realmente muito diferente de todos do lugar.
E voltara a colher
goiabas e fazia doces muito gostosos.
Acredito que era apenas
uma mulher além do tempo...
sonia delsin

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