O VASO
Era um simples vaso?
Meio trincando. Feio.
Jogado.
E ela o pegou.
Para casa levou. Lavou.
Nele uma folhagem plantou.
Deixou-o ali num canto da
varanda.
Veio o vento. Derrubou. O
vaso quebrou.
Ela nem reclamou.
Os cacos catou.
...
Passaram-se os anos. A
moça se transformou numa mulher solitária.
Vivia do quarto à sala.
Na cozinha ia pouco. Só o tempo de preparar uma refeição. A área de serviço
ficava por conta da moça que vinha fazer a faxina semanalmente.
Trazia sempre um livro à
mão.
Um dia pensou: vou contar
daquele vaso que quebrou (era metida a escrever também). Havia nele um certo encanto (no vaso). Por
isso o peguei.
E quis descrevê-lo. Mas
como se na memória pouco ficara?
Nem lembrava a cor do
vaso.
Os cacos talvez
estivessem ainda nalgum canto do mundo.
E ela gostaria de tê-los
à vista para descrever o vaso.
Que moça tola fora!
Cheia de ilusões.
Como as pessoas conseguem
machucar os corações!
O dela fora fatiado por
alguém que tanto tinha amado.
Mas já fazia parte do
passado.
...
Contar do vaso? Inventar?
Em parte, porque o vaso
existiu noutro tempo.
Contar que era
cor-de-rosa ou azul? Ou vermelho?
Faria alguma diferença?
O importante é o que a
gente pensa.
E ela se pôs a pensar no
vaso...
Nem era bonito.
Mas fora importante
porque viera fazer parte das coisas da varanda.
A varanda também ficara
no passado.
...
Um vento veio lhe
recordar que a janela do quarto estava aberta. Fechando a janela passou pela
penteadeira e observou que envelhecera tanto.
Os anos passaram.
Talvez o gato da vizinha
hoje viesse lhe fazer companhia. O danadinho vinha pela janela. Mas ela
fechando-a perderia a oportunidade de receber a visita de Tim. Fora o nome que
dera ao belo gato. Sabia que era da vizinha. Via-o chegar e lhe enchia de
agrados.
...
Seu mundo pequeno se
resumia nos livros, nos escritos, nos carinhos que entregava a Tim. E nas
lembranças que eram tantas.
Algumas eram doloridas.
Outras nem tanto.
E a vida seguia.
Ela envelhecia.
sonia delsin

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