Pular para o conteúdo principal



A NOIVA

Ela vinha com um belo buquê de orquídeas na mão.
Olhos deitados no chão.
Vinha chorosa.
O pai diria: triste Rosa.
É, o nome dela era Rosa.
...

Casar-se-ia. Chegara seu dia.
Mas não era com alegria que o fazia.
Fora obrigada a isso?
Não fora. Simplesmente se deixara levar aos pés do altar.
Sentindo-se solitária e vendo os anos chegarem aceitara o pedido.
O pai vivia lhe repetindo: não faz sentido. Desiste Rosa.
A mãe a aconselhando: o amor vem com os anos.
Ela nem tinha planos.
Deixara-se levar.
...
No altar aquele homem a aguardava. Quase um estranho. Na verdade, era um completo estranho. Tinham trocados alguns beijos. Beijos frios, sem graça.
A fala dele, o jeito dele, nada a agradava. Então por que deixara que as coisas chegassem a este ponto? Voltar atrás? Dizer que não queria mais?
...
Rosa caminhava com dificuldade. Mais alguns passos e chegaria ao altar. Ia só. O pai na última hora desistira de acompanhá-la até o altar.
-- Não vou fazer parte disso. Que asneira está cometendo!
A mãe sorridente a aguardava no altar enquanto o pai nem se virara para olhá-la.
O noivo sem graça a aguardava.
Era mesmo sem graça.
...
Dizer sim? Prender-se a um homem que nem amava? Correr dali? Fugir na última hora?
A que ponto chegara!
Que vontade de jogar o buquê no chão! Que vontade de sair correndo!
...
O noivo a recebendo com um beijo na testa.
Será que ele me ama? – ela se perguntava.
Mãos geladas. Entregara o buquê para a mãe. Os padrinhos tão bonitos, sorridentes.
Todos sorridentes. Só ela que trazia lágrimas aos olhos.
Muitos diriam: está chorando de alegria.
Que alegria que nada!
Era de tristeza, era aquela incerteza... o que fazer, o que fazer?
Achara que seria fácil ir lá na igreja dizer sim e pronto.
E depois? Viver ao lado de alguém sem amá-lo?
...
O padre falando, ela distante. Ela nem escutando.
E por fim: você aceita o Lauro como seu esposo até que a morte os separe?
A noiva simplesmente ficou olhando a boca do padre, a boca de Lauro... ficou olhando os olhos do noivo e de repente desabou ao chão.
Sim? Não? Sim? Não?
Uma baita confusão.
A noiva simplesmente permaneceu ali desmaiada. O padre, o noivo, os padrinhos, pais dos noivos e demais convidados ficaram sem entender nada.

sonia delsin 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CAVALO DO VIZINHO Zarpar dali? Montar o cavalo do vizinho e correr pelas campinas? Rever as meninas? Ó que tempo doce! ... Sentindo saudades dos bolos assados sob as brasas. Ela com suas asas... ... A luz do mundo, o sal do mundo. O padre lhe dizendo coisas. - Pecaste pela castidade? - Que é isso padre? Que é castidade? ... Crescer... crescer e quantas decepções! Por que crescemos e da criança que fomos nos perdemos? Sempre a pergunta. ... E o amontoado de dias, as responsabilidades, as cidades, felicidades, infelicidades... Mil motivos para viver. Milhares de motivos para morrer. Por que, por que? Se a vida é um contínuo aprender... ... Tantos anos, tantos planos... frustrados. Tantos maus jeitos, maus feitos, defeitos! ... E os pontos de luzes? E as cruzes? E as abençoadas luzes? ... Nunca mais voltar aquele sítio. Nunca mais montar o cavalo do vizinho. Nunca mais sofrer. sonia delsin 
O VASO Era um simples vaso? Meio trincando. Feio. Jogado. E ela o pegou. Para casa levou. Lavou. Nele uma folhagem plantou. Deixou-o ali num canto da varanda. Veio o vento. Derrubou. O vaso quebrou. Ela nem reclamou. Os cacos catou. ... Passaram-se os anos. A moça se transformou numa mulher solitária. Vivia do quarto à sala. Na cozinha ia pouco. Só o tempo de preparar uma refeição. A área de serviço ficava por conta da moça que vinha fazer a faxina semanalmente. Trazia sempre um livro à mão. Um dia pensou: vou contar daquele vaso que quebrou (era metida a escrever também).   Havia nele um certo encanto (no vaso). Por isso o peguei. E quis descrevê-lo. Mas como se na memória pouco ficara? Nem lembrava a cor do vaso. Os cacos talvez estivessem ainda nalgum canto do mundo. E ela gostaria de tê-los à vista para descrever o vaso. Que moça tola fora! Cheia de ilusões. Como as pessoas conseguem machucar os corações! O dela fora fatiado...